terça-feira, 5 de julho de 2016

Adeus a um amigo Ipê

Uma lembrança
Toda vez que ouço que mais uma árvore será cortada, tento infelizmente ignorar meus sentimentos de raiva que subitamente emergem, por imaginar que não tenho poder de mudança frente a esse problema =“ a falta de valorização do que é essencial a nossa existência: a natureza”. Sou apenas mais uma nessa vastidão de pessoas e não consigo saber de todas as árvores cortadas, apenas para o falso deleite humano do progresso, e da limpeza urbana.
Os relatos são dos mais diversos, “vou arrancar uma árvore porque está estragando a minha calçada”, a minha dúvida é por que cimentou ao redor da árvore? Não sabe que a mesma precisa de espaço para firmar suas raízes, ocupar seu espaço. “Em outro caso há a desculpa da sujeira das flores, das folhas, da terra”, quem produz a sujeira somos nós ao descartar embalagens em todo o lugar, o que cai de uma planta rapidamente se transforma, não prejudica, só traz benefícios ao solo ( quando não há apenas cimento).
A natureza é aclamada na fotografia, em vídeos e em outras mídias. Nas redes sociais todo mundo ama os animais e o verde, mas percebo que em suas ações diárias demonstram uma divisão entre os homens e outros seres vivos e não vivos.  Um exemplo é a questão dúbia da sustentabilidade, “sou sustável porque compro um produto de embalagem reutilizada, porém não sou capaz de olhar o que minha rua traz, e doa-me diariamente”.
Faço esse desabafo, pois, mal começou a semana e fui informada sobre a futura morte de duas árvores ao redor de minha casa. Uma delas minha irmã e eu conseguimos impedir, mas, o ipê rosa florido que encanta meu caminho provavelmente se vai, por causa da construção de uma garagem.
É difícil não sentir indignação pela morte de uma árvore que durou anos para chegar ao seu ápice, para dar lugar a uma construção humana. O incrível é ouvir a alegação de que a árvore não está adequada ao local. Mas qual é o local adequado de uma árvore? Só pode ser fora da humanidade.
Rubem Alves em uma de suas crônicas reverencia os Ipês, árvores que no inverno vão ao inverso, enquanto outras plantas dormem, elas corajosamente desabrocham e invadem as cidades, os campos com seu charme. De longe é possível vislumbrar sua beleza que voltará apenas no próximo inverno. “Os ipês são uma metáfora do que poderíamos ser. Seria bom se pudéssemos nos abrir para o amor no inverno...”( Rubem Alves)
O engraçado é pensamos em nossa imunidade frente à natureza, e cada vez mais nos esquecermos, e distanciarmos de nossa composição também, somos naturais, natureza. Progresso seria voltarmos às coisas simples, aprendermos a olhar a finitude dos seres. Não há eternidade para nós, não espere as férias chegar para ir à praia, ou rancho e dizer que está em contato com a natureza, em um lugar afastado do seu cotidiano.
Perante a futura morte do meu amigo ipê, sinto que o que posso fazer é dizer um adeus e agradecer pela sombra no verão, e beleza no inverno. 
Andressa Giacomini

2 comentários:

Jon disse...

Que triste! É a ganância e desamor do ser (des)humano imperando outra vez. Ipês, para mim, são a natureza fazendo poesia.

p.s.: Amo Rubem Alves.

Andressa disse...

Concordo Jon. Também amo Rubem Alves

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