terça-feira, 18 de abril de 2017

Cordão: Juntas e separadas

imagem extraída do we heart it.
Já critiquei, criei caso, fechei o semblante, desmoronei.
Gritei para ser ouvida, e nem a voz límpida ou embargada de choro, tirou o fato de seres minha mãe.
Teu ventre me carregou confortavelmente durante meses, teu alimento me alimentou, fomos apenas uma, ligadas pelo fio iniciador da vida “ o cordão umbilical”.
Agora desprendida, depois de anos na labuta de separar meu ser do seu, criamos uma relação de comunhão.
Não vê como eu vejo, não tenho seus olhos grudados aos meus. Aprendemos a virar as costas de mãos dadas. Somos duas, e cada uma está tecendo a sua própria jornada. Andressa Giacomini

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Perdão...

Imagem: We heart it

Abrir a porta do perdão, não é esquecer, nem tirar da memória.
Ao contrário, é lembrar, trazer a tona e se apropriar do que foi dito, não dito, amado e odiado,
Carregar como seu. Como parte da sua caminhada.
Sem o gosto amargo da falta, do poderia ter sido, do talvez, e o “se” continuamente exclamado. Poderia, mas não foi.
Não é.
O perdão entra na esfera do aceito, e aceitar não como a isenção de opções, e sim, a compreensão das condições que levaram tal vivência, com suas emoções e afetos.
A perfeição,
A busca pelas escolhas certas, ilude, vira o jogo para o que a existência humana não é, acabada e completa.
Perdoe, pois, somos faltas. Andressa Giacomini

sexta-feira, 31 de março de 2017

Ser no tempo

imagem: we heart it 
De em tempos em tempos, brigo com o tempo.
Puxo seu aspecto espectral. Seguro os fios do relógio firmemente, tentando controlar seu curso natural. O fim.
O “tic tac” demarca, corta os dias entre manhã, tarde , noite e madrugada. Fragmentada distribuo a minha jornada.
O meu curso de vontades nem sempre é compatível com a máquina de marcar os segundos. E vou seguindo, entre o choque de ser dentro do tempo, constituindo a minha existência junto ao mundo que roda, gira, se faz noite e dia.
O cronológico parece gritar, não perca a hora, os segundos estão a passar, a morte está mais próxima.
O fim, companheiro diário, entrelaça meu tempo, deixo-o fazer visita, e se instalar em minha rima. Sou fim, finitude contida no meu tic tac.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Direto de Rubem Alves- CECÍLIA MEIRELES


No vasto campo da leitura, a cada dia conheço um escritor ou livro novo, e minha vontade de lê-los aumenta e se perde na imensidão da lista do "Quero Ler". Nesta crescente agregação de livros e autores/escritores surge a sensação de falta, de não conseguir dar conta de tanta leitura.
Como este é um fator conflitante, gerando bastante reflexões, aderi um dos ensinamentos que a leitura do Poder do Mito (Joseph Campbell) trouxe-me, o de ler autores e escritores citados por escritores que gosto. Assim, vou delimitando minha lista e conhecendo livros dentro da minha linha de reflexão e filosofia.
Um dos escritores que tenho maior admiração, é o brasileiro Rubem Alves. Conheci seu trabalho através do capítulo Amiga Solidão do livro "Na morada das palavras", discutido em uma aula de teatro. Só posso descrever paixão pelas suas palavras, seus livros me ajudam a desocultar uma simplicidade e amplitude até então escondidas em mim.
Ler livros citados por escritores que gosto, pode parecer limitador de outros livros fora desse campo, porém, de qualquer forma estarei deixando de lado alguns livros, é quase impossível ler todos os escritores.
Graças a Rubem Alves venho conhecendo escritores até então não explorados, por isso, criei a tag Direto de Rubem Alves, espaço no blog que dedicarei a resenhas e considerações de livros que  li a partir deste autor.
O primeiro post será dos livros de poesia,  da Cecília Meireles. Antes, nada compreendia de poesia, li algumas na época do ensino médio e não sentia nada, passei despercebida por elas. Agora, depois de anos não consigo me ver sem o toque da poesia, são versos sem explicações conhecidas na nossa dinâmica objetivista e cotidiana, que me enchem de acolhimento. 

Cecília Meireles em mim tem o poder de ferir, colocar para fora minhas feridas e novamente estancar o sangue com suas palavras. São versos e mais versos que enchem meu dia de nova sonoridade, e beleza. Para ser sincera, antes de adentrar em seus livros já tinha dois poemas dela na ponta da língua, que repetia constantemente Retrato e Motivo. Repetia sem pensar, repetia e repito por me tocar, dar voz aos meus sentimentos.
Cada poema cabe em um dia, selecionei os que hoje estão me fazendo pensar, amanhã já será outra coletânea, mas vou deixar fixo estes no post.

Canção Excêntrica
Ando a procura de espaço
Para o desenho da vida.
Em números me embaraço
E perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
Em vez de abrir um compasso,
Protejo-me num abraço
E gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
É já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
Começa a achar um cansaço
Esta procura de espaço
Para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
Não me animo a um breve traço:
- Saudosa do que não faço,
- Do que faço, arrependida.


Humildade (1954)

Tanto que fazer!
Livros que não se leem, cartas que não se escrevem,
Línguas que não se aprendem
Amor que não se dá
Tudo quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papeis, papeis, papeis...
até o fim do mundo assinando papeis.

E os pássaros atrás de grades de chuva
e os mortos em redoma de cânfora

(E uma canção tão bela!)

Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca sabemos quem éramos
nem para quê.

4º Motivo da Rosa

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.



domingo, 6 de novembro de 2016

Choro porque choro, e isto já me basta.

foto weheartit
Choro engasgado, preso, sem uma explicação plausível para ceder. Se perguntares o que há? Apenas as lágrimas irão responder.
Lágrimas quentes e finas, calmas e tortuosas lavam meu rosto, e enchem meu corpo de sadia melancolia.
Meu nariz arde e tento segurar o choro, só porque o ambiente não pede alarde. É preciso suprimir as lágrimas, trancá-las na gaveta mais profunda da alma. Eles não podem saber que choro, sem ter um motivo trágico. Choro porque existo, e existir traz a dor em ser.
Já busquei decifrar, em vão, o porquê de chorar com tanta frequência, se a soma dos meus afazeres é favorável, tenho trabalho, arte, espaço e laço.

E só cheguei ao choro em sua forma mais pura e crua. Choro porque choro, e isto já me basta.

sábado, 30 de julho de 2016

A surpresa da chegada

Weheart it
Se chegar cedo, traga-me um café, preciso de animo para ficar em pé.
Dividiremos os bocejos preguiçosos da manhã e para ti darei um abraço quente, terno, de quem se embalou por horas adentro no aconchego da cama.
Na minha vez, não direi a que horas chegarei.
Deixarei a surpresa, do não esperado ter seu regalo e nos banhar com afagos.
Talvez uma faceta de susto, permaneça em você. Pode ser que me acolha em seus braços, ou que a frieza o mantenha distante.
Depende do seu dia, de sua disposição momentânea em me ver.   
São riscos acarretados pelo imprevisto, o não planejado e a incerteza em ser.
Andressa Giacomini

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Deixa a delicadeza transbordar

foto by me
Parece que a delicadeza não chama mais a atenção, vem associada à fragilidade, a incapacidade de suportar as adversidades. A moda agora é a de demonstrar ser forte, impenetrável pelas forças alheias.
Talvez, por isso, que as flores perderam sua vez, e o concreto é o que rege, ele não se mexe, não tem fluidez. Fica intacto, barra o vento e nos protege do mundo sombrio, das relações.
Essas classificações são superficiais, as flores, seres passageiros se vão em apenas dias, porém, suas bases são raízes fincadas ao chão. A florada é efêmera, e seu tempo de vida se seguir o fluxo natural é de idas e vindas, de flores e seca.
As flores são frágeis ao toque, se deixam levar pelo afeto, pelo sentir. Perdem suas pétalas e renascem em outra estação. Já o concreto, tão certo de sua invulnerabilidade é destruído por marretadas e se desfaz em pedaços, não tendo a capacidade de por si só juntar seus pedaços.
Trazendo uma analogia a existência humana, as vezes sinto que estamos buscando supra homens, seres corajosos e inabaláveis, que escalam montanhas orgulhosos de suas conquistas individuais. Esquecendo que mesmo ao escalar uma montanha há o toque com a rocha, não estamos nunca isolados do mundo..
As mulheres antigamente símbolos da delicadeza e fragilidade, assumiram uma postura de fortaleza para alcançarem seu espaço ilusório de igualdade. Revestiram-se de camadas e esconderam bem lá no fundo seus sentimentos, em uma gaveta que me aterrorizo em pensar que talvez não encontremos mais a chave que destrave outros sentimentos e afetos além da super proteção.
Não sou crítica a esta postura e nem antifeminista, pois esses acontecimentos foram necessários, precisávamos de voz além da lista de compra, e afazeres do lar.
Meu olhar vai aos polos, quando apenas uma forma de ser e estar é considerada moralmente aceita. Não elejo nem essa época melhor nem as anteriores, ambas parecem generalizar. Aprecio o abraço ao todo, ao ser forte em suas essência, e frágil por deixar-se embalar pelo mundo.

Delicado para mim, é aprender a sentir o toque do mundo, não como apenas uma ofensa, ou bulling, deixar-se envolver por ele, banhar-se pelo homem e outros seres.
Andressa Giacomini

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Efêmeras felicidades

foto "Colhida no jardim de um amigo"
Felicidade para mim não é um acontecimento único, intacto, me esperando no fim do arco-íris, com um prazo marcado. Mas sim, vários prazeres distribuídos em meus dias, oscilando entre a calmaria e a tempestade. 
São efêmeras minhas felicidades, e sua brevidade é que me enchem de espera e me fazem devorá-las oras calmamente oras cheia de pressa.
Que graça haveria se eu fosse feita só de felicidade? Onde a tristeza entraria e faria a sua parte, de amiga e conselheira íntima? A felicidade não pede reflexão ela só vem e ordena a vivência do momento. 
Ah! e a tristeza, essa sim ensina, me coloca frente a frente comigo, com minha parte mais dolorida. Ela ensina calma, escuta, traz o  retorno a mim mesma, o contato com o interior, para assim criar asas novamente.
Minhas felicidades possuem um toque de melancolia e nostalgia, sendo a junção das alegrias e tristezas. As reuni nesse texto a fim de eternizá-las nem que for por um momento. 

Efêmeras felicidades

Acordar cedo e sentir o cheiro de café invadindo meu quarto.
Pão na chapa, queijo fresco, 
manteiga derretendo no bolo quentinho feito pela minha irmã, coberto com amor.
Café com leite, 
Devaneio na janela,
Viajar sendo acompanhada pela música, 
Dançar pela casa,
caminhar sozinha,
Passar minutos a fio, olhando meus livros, sendo abraçada por eles,
Contato, cheiro de pele
Estudar o que gosto
Encontrar preciosidades no brechó
Descobrir algo no caminho que faço diariamente
Cheiro de planta,
Admirar as flores,
Ficar acordada até tarde, sem compromisso no dia seguinte.
Vislumbrar o céu, de manhã, a tarde, fim de tarde, noite...
Desembrulhar um livro novo,
ir a caça de filmes e chocolates,
Dormir a tarde,
Rimas infinitas em meu caderno,
Linhas em branco no diário,
Ganhar um livro ilustrado,
beijo roubado
e momentos de interrogação? onde falta a resposta... e a porta aberta é o que me toca...

Andressa Giacomini
.....

terça-feira, 5 de julho de 2016

Adeus a um amigo Ipê

Uma lembrança
Toda vez que ouço que mais uma árvore será cortada, tento infelizmente ignorar meus sentimentos de raiva que subitamente emergem, por imaginar que não tenho poder de mudança frente a esse problema =“ a falta de valorização do que é essencial a nossa existência: a natureza”. Sou apenas mais uma nessa vastidão de pessoas e não consigo saber de todas as árvores cortadas, apenas para o falso deleite humano do progresso, e da limpeza urbana.
Os relatos são dos mais diversos, “vou arrancar uma árvore porque está estragando a minha calçada”, a minha dúvida é por que cimentou ao redor da árvore? Não sabe que a mesma precisa de espaço para firmar suas raízes, ocupar seu espaço. “Em outro caso há a desculpa da sujeira das flores, das folhas, da terra”, quem produz a sujeira somos nós ao descartar embalagens em todo o lugar, o que cai de uma planta rapidamente se transforma, não prejudica, só traz benefícios ao solo ( quando não há apenas cimento).
A natureza é aclamada na fotografia, em vídeos e em outras mídias. Nas redes sociais todo mundo ama os animais e o verde, mas percebo que em suas ações diárias demonstram uma divisão entre os homens e outros seres vivos e não vivos.  Um exemplo é a questão dúbia da sustentabilidade, “sou sustável porque compro um produto de embalagem reutilizada, porém não sou capaz de olhar o que minha rua traz, e doa-me diariamente”.
Faço esse desabafo, pois, mal começou a semana e fui informada sobre a futura morte de duas árvores ao redor de minha casa. Uma delas minha irmã e eu conseguimos impedir, mas, o ipê rosa florido que encanta meu caminho provavelmente se vai, por causa da construção de uma garagem.
É difícil não sentir indignação pela morte de uma árvore que durou anos para chegar ao seu ápice, para dar lugar a uma construção humana. O incrível é ouvir a alegação de que a árvore não está adequada ao local. Mas qual é o local adequado de uma árvore? Só pode ser fora da humanidade.
Rubem Alves em uma de suas crônicas reverencia os Ipês, árvores que no inverno vão ao inverso, enquanto outras plantas dormem, elas corajosamente desabrocham e invadem as cidades, os campos com seu charme. De longe é possível vislumbrar sua beleza que voltará apenas no próximo inverno. “Os ipês são uma metáfora do que poderíamos ser. Seria bom se pudéssemos nos abrir para o amor no inverno...”( Rubem Alves)
O engraçado é pensamos em nossa imunidade frente à natureza, e cada vez mais nos esquecermos, e distanciarmos de nossa composição também, somos naturais, natureza. Progresso seria voltarmos às coisas simples, aprendermos a olhar a finitude dos seres. Não há eternidade para nós, não espere as férias chegar para ir à praia, ou rancho e dizer que está em contato com a natureza, em um lugar afastado do seu cotidiano.
Perante a futura morte do meu amigo ipê, sinto que o que posso fazer é dizer um adeus e agradecer pela sombra no verão, e beleza no inverno. 
Andressa Giacomini

terça-feira, 21 de junho de 2016

Marcas evidentes

A umidade revelava o absorver de água que aquela parede era capaz de aguentar. Inchada, o mofo sinalizava o que já não conseguia ocultar.
Não havia farsas, camadas de pinturas, papel de parede florido, móveis decorados que tirassem o foco de suas marcas, ressaltadas, descascadas pela ação do tempo.
E como era bonito, harmônico, quando o mofo, as cascas ganhavam asas e dançavam pela sala. Sem medo ganhavam formas, e aceitavam sua mutação de uma parede lisa ao constante desmanche dos dias.
Andressa Giacomini

segunda-feira, 13 de junho de 2016

O Quadro

  foto via We heart it

Pincelava o quadro como fazia na vida, com repetitivos movimentos de vai e vem.
Sentia que a  imagem intacta na tela movimentava-se mais do que seu dia e brandia tantos alvoroços como nenhuma festa fazia.
Ela contemplava a pintura com meia xícara de café, o quimono percorria suave em seus braços nus, calmos, soltos, entregues naquela viagem interna para dentro do quadro.
Sem perceber deixou o dia lá fora, as buzinas dos carros, o mundo com seus barulhos e ditados pelo puro prazer de entregar-se ao momento, a experiência na tela.
Andressa Giacomini

terça-feira, 7 de junho de 2016

Pausa


Após mais uma tarde de trabalho, na correria dos afazeres e no compasso do relógio , caminhei de volta para casa. O trajeto parecia o mesmo de ontem, anteontem, exceto pela pausa no caminhar.
Subitamente meus pés travaram e não pude sair do lugar. Foi então que meus olhos pregados ao chão, subiram ao encontro do céu.Os pensamentos voltados ao possível descanso no futuro ,deram espaço ao voo dos pássaros, ao céu amarelado, ao horizonte esverdeado.
Um frio percorreu minha barriga, um choque realmente físico de que tudo se vai. Já diz o bordão do senso comum " tudo passa", a "única certeza da vida é a morte".
A morte do dia, da rima, da melodia, da minha vida, do amor, da dor, de tudo que pulsa. E quando o universo deixar de expandir, apenas o tempo continuará a vagar. Com ele não há pausa, volta, avanço, apenas o deixar rolar.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Cartas a um jovem poeta: Rainer Rilke


Aventurar-me-ei na procura de instigar vocês leitores a experimentarem “Cartas a um jovem poeta”, escritas pelo poeta da língua alemã Rainer Maria Rilke.  Este livro é breve em quantidade de folhas e enorme de significados e poesias.
No começo do século XX, Rilke correspondeu através de cartas com um jovem estudante que estava vivenciando a angústia frente à escolha profissional. O mesmo buscava uma resposta imediata para livrar-se da tensão em lidar com o incerto, com a falta de solução e bambeava sua dúvida entre a carreira militar e a de poeta.
Ao escrever a Rilke que na época já era poeta, o jovem a princípio buscou um respaldo para confirmar a sua escolha. Porém, durante os anos que corresponderam, Rilke foi descontruindo a necessidade de ter apenas uma resposta e aventurou o jovem a permanecer na incerteza e com paciência começar a questionar-se e consequentemente se conhecer.
Diante da dúvida, Rilke não esboça um caminho a seguir, e sim introduz o jovem a pensar mais sobre a escolha singularizando-a, ao banhar-se em sua solidão e no silêncio da madrugada encontrará acolhimento para olhar mais para si. Como escreveu o poeta:
“O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não deveria fazer. Ninguém pode aconselhá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele de escrever, comprove se ele estende as raízes mais profundas do seu coração... Pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa da madrugada: preciso escrever¿ Desenterre-se de si mesmo uma resposta profunda” (RILKE, pq.25).

Acredito que o livro não é simplesmente destinado a futuros poetas, já que a poesia não está apenas em versos publicados em livros e sim na forma de compreensão da existência humana. Por isso, ao olhar novamente o título da obra, penso que a mesma é para todos nós que vivenciamos a existência humana além do acúmulo de informações e de explicações.
Um jovem poeta é quem está experimentando olhar ao avesso, pela poesia. A palavra poesia vem do grego “poiesis” e significa criação. Para Pompéia; Sapienza ( 2013), poesia é trazer a luz, desocultar, não pela razão e argumentações do cotidiano, mas em tudo o que sentimos sem explicações objetivas. Os autores citam um trecho de Platão abrangendo o significado de poesia.
“ Como saber, “ poesia” é um conceito múltiplo. Em geral se denomina criação ou poesia a tudo aquilo que passa da não-existência à existência. Poesia são as criações que se fazem em todas as artes. Dá-se o nome de poeta ao artífice que realiza essas criações” ( 2013, p. 157).

Precipitadamente partimos do parâmetro do outro para avaliar as nossas próprias escolhas, Rilke parte do inverso, de trazer o questionamento para se autoconhecer, afastando-se pela solidão dos murmúrios coletivos que acabam nos desviando de decisões mais autênticas.
Sensivelmente este poeta alemão me acolheu durante a leitura, principalmente pelo momento em que estava passando quando li. As incertezas após a graduação estavam pairando sobre mim, em relação ao mercado de trabalho, ao que quero realmente fazer e seguir, mas, com paciência estou quebrando alguns paradigmas e abraçando o mistério do incerto, ou seja, deixando florescer.
Fecho esse post, com mais um trecho do livro para que com paciência possamos nos apoderar de nós mesmos.
“Gostaria de lhe pedir da melhor que maneira que posso, meu caro, para ter paciência em relação a tudo o que não está resolvido em seu coração. Peço-lhe que tente ter amor pelas próprias perguntas, como quartos fechados e livros escritos em língua estrangeira.

Não investigue agora as respostas que não lhe podem ser dadas, porque não poderia vivê-las. E é disto que se trata de viver tudo. Viva agora as perguntas. Talvez passe, gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a viver as respostas.” ( RILKE, p.43)
Andressa Giacomini

quinta-feira, 3 de março de 2016

Minhas considerações: A montanha mágica- Thomas Mann


Entre tantas mudanças de blogs, cá estou eu novamente aventurando-me no mundo da blogosfera. Desta vez o foco (até que outra ordem de motivação surja) é alimentar este espaço com meus textos, resenhas de leituras e filmes.
Eu poderia resenhar, criticar em um caderno, em folhas avulsas para treinar a escrita, mas a minha vontade de compartilhar e receber opiniões é maior do que trancafiar minhas ideias só para mim.
O nome do blog continuará o mesmo, “Retalhos da Rotina”, já que ainda expressa o que quero disponibilizar aqui, retalhos dos meus hobbies. Não terão escritos de cunho teórico da psicologia, apenas a minha percepção sobre minhas atividades rotineiras (ler, escrever e assistir...).

A resenha da vez é sobre o livro A Montanha Mágica de Thomas Mann. Fico um pouco acanhada em opinar sobre este clássico, devido à possibilidade de desdobramento que o romance possui e de minha opinião ainda leiga sobre a profundidade da profecia que Thomas nos presenteou.
A obra foi escrita no início do século XX,período anterior à segunda Guerra Mundial. O romance relata a experiência do jovem engenheiro Hans Castorp, que ao visitar seu primo em um sanatório para tuberculosos nos Alpes suínos, acaba por estender sua estadia de algumas semanas para anos.
Dentro desse espaço aonde a atividade intelectual era ativa, Hans depara-se com questionamentos de ordem filosófica tal como o que é o tempo, e acaba por desprender-se das ordens sociais da planície (sociedade europeia) e aventurar-se em construir seus próprios ideais.
Os moradores do sanatório vivenciam a passagem do tempo diferentemente da rotina da sociedade europeia, vinte quatro horas não apresenta o mesmo significado na planície como nas montanhas. Os moradores do sanatório vivenciam a passagem do tempo diferentemente da rotina da sociedade europeia, vinte quatro horas não apresenta o mesmo significado na planície como nas montanhas. Porém, mesmo com a eclosão de história e filosofia, a obra aborda a vivência de seres humanos, como os mesmos estão emaranhados nos movimentos sociais e intelectuais, e como significam essa realidade.
Thomas Mann conseguiu captar neste romance o choque que uma crise de ideias gera na sociedade, a dualidade de pensamentos. A obra pode ser compreendida também na nossa sociedade atual, onde a cada momento uma nova opinião surge e rompe com a anterior.
Para ser sincera demorei um ano para ler o livro, não por ser chato, mas a leitura exigiu de mim momentos de pausa, de distanciamento e retorno. Não foi uma leitura fácil, mas seu afeto estimulou-me a prosseguir.
E na verdade o que é o tempo, como o autor começa, uma pessoa pode ler essa obra em apenas sete dias ou demorar muito tempo, o que importa é o que extrair dela.
Captei alguns pontos da obra e vários outros escaparam da minha percepção, por isso sinto a vontade daqui a alguns anos reler o livro e experimentar o que mudou desde então.
Por fim, dentre tantos grifos que fiz, este capta o quão envolvidos somos no nosso tempo, somos seres históricos e isso que Hans acaba vivenciando dentro do sanatório, antes de adentrar na guerra.


“O homem não vive somente a sua vida individual, consciente ou inconscientemente participa também da vida de sua época e dos seus contemporâneos”. Pg,52

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Minhas considerações sobre A Metamorfose- Franz Kafka

Antes de começar a explanar sobre as minhas considerações de A Metamorfose, vou criar um parênteses para acrescentar que meu blog naturalmente está modificando em apenas ser a externalização das minhas vivências literárias. Mas estou gostando desse novo caminho.
Bom, penso que as obras literárias de Kafka vem embutidas nas percepções sociais como difíceis, complicadas e outros adjetivos que confesso terem contribuindo para a minha pré percepção da obra. Tento me abastar dessas considerações antes de ler, pelo menos um pouco para diminuir a interferência em minhas próprias percepções da leitura, portanto, o que vou acrescentar aqui são apenas meu modo de sentir a obra sem mais nem menos. 
Adentrei na leitura do livro com um pouco de receio e com o passar das frases fui descobrindo um livro leve no sentido gramatical e pesado em sua simbologia e significados.  
Resumo: Gregor Samsa é um jovem adulto que mora com seus pais e sua irmã, o mesmo tem um bom cargo financeiramente, trabalhando como caixeiro-viajante. Sua vida está entrelaçada ao trabalho, não havendo convívio social além do familiar e do âmbito do trabalho. Após uma noite  de sonhos inquietos, Gregor acorda transformado, habitando um novo corpo. Metamorfizado em um inseto monstruoso. 
Minhas considerações: A leitura tocou-me não pelo estranhamento aparente por um ser humano ter transformado em um inseto, mas o que me assolou foi o rico acervo de sentidos por detrás de tal metamorfose. Senti o Gregor como um jovem cuja a existência estava voltada exclusivamente ao coletivo, a vida em família.
Quando ele transforma-se em um inseto não se mostra angustiado,como se esperasse esta mudança. Na família é que o choque se assola, acostumados a um Gregor, quando deparam-se com um novo ser há um desiquilíbrio em sua condição familiar.
Me veio o pensamento de como a mudança pode ser significada como um empecilho a dinâmica do grupo, quando encarada com rigidez. O filho habita outra forma física, mas continua existindo como antes dentro de si. 
A família a princípio tenta uma relação humanizada com o mesmo, pela a espera daquele antigo Gregor e não por aceitar sua nova condição de ser. Assim, mesmo após a metamorfose ele continua a margem apenas do coletivo, tendo de viver as escondidas para suavizar o choque de seus familiares.
Por fim, percebi A Metamorfose como um inchaço da rotina inautêntica do personagem principal, que a levava repetindo ações sem ter um sentido ou propósito verdadeiramente seu. Outro ponto é como seu convívio social tentou esconde-lo e mascara-lo devido as suas novas condições, sem levar em considerações as atribuições que ele trouxe a família e ao trabalho.
O livro permite mais desdobramentos, mas me encerro por aqui.

domingo, 31 de maio de 2015

Considerações sobre: O resto é silêncio- Erico Verissímo


Quando vi o título "O resto é silêncio", fiquei entusiasmada com mais uma leitura do Erico Veríssimo, com personagens tão humanos e sensíveis. Tenho uma relação de pertencimento, encanto e mistério com os livros dele.
As palavras que utilizei para classificar os livros, são decorrentes nas duas obras do autor para descrever os momentos únicos e significativos dos personagens.
O resto é silêncio conta a história de personagens envolvidos emocionalmente com o suicídio de uma jovem. Após, presenciar tal cena, os mesmos acabam encontrando-se constantemente com o fato em seus dramas diários. 
O afeto que tal acontecimento traz na vida dos personagens é da morte, vivenciada como choque. Colocando diante da  própria finitude.
A história aparentemente simples, desdobra-se cheia de sutilezas e conflitos humanistas. E isso que amo nos livros dele. Erico consegue trazer o humano, e nisso vou descobrindo um pouco mais de mim, coletando recortes.
Me identifiquei com o Gil filho do escritor Tônio. O mesmo vive o dilema de querer aventurar-se no mundo, no relacionamento e ter que deixar sua casa a "torre". O pai como bom contador de histórias, criou dentro de sua residência um ambiente aconchegante, acolhendo sua família e criando a abertura para a família se expressar. 
Gosto muito dessa parte do Gil.
"A paisagem deu-lhe um desejo ansiado e ao mesmo tempo langoroso de viver. Mas viver em muitas partes do mundo ao mesmo tempo. Gozar daquele sol, daquele instante em vários lugares da Terra, conhecer e amar as pessoas mais diferentes- mas tudo isso sem nunca abandonar  a torre e seus habitantes. Abarcar o mundo num abraço...".

Segue outros grifos da obra:
 "Os homens sabiam muito pouco não só uns dos outros. Mas também de si mesmos".

"O globo terrestre parecia dizer. Vejam como a Terra é grande, o Universo muito maior. O mistério da vida é ainda muito, muito maior".

"Havia sobre todas as coisas uma paz tão grande que chegava a ser triste".

"Queria sofrer. Precisava sofrer. Queria um momento de paz sem o menor gozo para os sentidos, paz um relaxamento, sem repouso, paz para mexer nas próprias feridas, paz para sofrer ainda mais".

"Como a gente as vezes perde de vista as pessoas".

Para finalizar, não tenho outra coisa senão recomendar a leitura.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Pelos olhos de Pandora

Observar um bebê tanto bichinho quanto do ser humano é adentrar no mundo das descobertas, do novo. Faz alguns dias que recebemos de braços abertos a chegada da nova integrante da nossa família, a Pandora.
Sua rotina é voltada as necessidades básicas (comer, dormir,...), mas, quando não está se satisfazendo, explora todo o ambiente com muita curiosidade.
O barbante caído no chão torna-se interessante a tal ponto que ela para de andar e vai puxá-lo. Todos os cantos da casa criam graça, vivacidade. 
Trago estas observações, pois percebo que quando crescemos vamos perdendo a curiosidade pelo mundo. A ciência já fez  tantas descobertas que parece não caber mais a nós meros seres humanos a função de investigar a vida. Não no sentido de obter-se uma resposta e sim ficar surpreso com o mundo a nossa volta, com as coisas simples e bonitas circundantes a nós.
Digo por mim, as obrigações da rotina, vão sugando a curiosidade. As minhas reações acabam sendo robóticas, levantar, sentar, comer nada mais é interessante e a Pandora está me dando uma lição de como apreciar e vivenciar o presente. É claro que a existência humana tem suas particularidades, porém, incorporar na rotina o saber olhar, perceber, me traz para o presente, o único momento da existência que realmente estou vivenciando. 

domingo, 17 de maio de 2015

Retalhos da rotina: mudança no nome do blog.

Retalhos da rotina transcreve o momento em que vivencio. Antes de mudar o nome do blog, me questionei sobre qual o sentido de ainda mante-lo e percebi que persiste em mim a vontade de expor algumas escritas e grifos de leituras.
Já não quero expor o que antes compartilhava, agora o que me move são pequenas observações da rotina, breves trechos de pensamentos, sensações e por enquanto mais nada.
Não estou fragmentada, só não faz mais sentido o que anteriormente me impulsionava.
Então, bem-vindos a alguns retalhos da minha rotina.




quinta-feira, 23 de abril de 2015

Qual nosso ponto de intersecção?

Estou resgatando minhas impressões de dias avulsos sobre o socializar e o compartilhar.
Venho percebendo um enlatar das pessoas expresso na arquitetura das residências e sucessivamente das cidades. As separações das residências por muros cada vez maiores, cobertos de cercas elétricas divide mundos, colocando uma barreira entre as relações.
Segundo Dunker (2015) na reportagem para o Jornal Folha de São Paulo a "existência é pensada entre muros. Se eu sair do meu muro, eu vou sair para brigar, para quebrar o muro do outro. Não é que o outro esteja fazendo algo com o qual não concordo, ele é de uma dimensão que eu não consigo reconhecer como semelhante à minha".
Sinto falta de empatia no socializar, é um fechamento muito forte em nossas próprias concepções. É como se o medo de nos ferir, acabasse nos protegendo de qualquer tipo de aproximação.
Não estou criticando a forma de possuirmos e dar vida humana aos espaços como certo ou errado, ou generalizando como se a fase atual da existência humana fosse a pior ou a melhor. E sim, observando como essas configurações espaciais acabam transcendendo em nossas relações sociais.
São mundos ocupando os mesmos espaços sem chegar a se afetarem profundamente. É um viver refugiado, amedrontado esperando o pior por vir, e o se colocar no lugar do outro escorre na própria individualização. Não há o reconhecimento do outro como parte importante da existência humana, as trocas e o compartilhar são existentes, porém percebo poucas entregas.
Como no trecho da música do Nero "Estamos fugindo de que ?Estamos fingindo pra que? Pra que tanta proteção?" 
Fiz esse post para expor minhas inquietações no sentido de que se nossa ocupação espacial reflete em nossas formas de socialização, qual nosso ponto de junção com o outro? Qual nossa intersecção?

quinta-feira, 16 de abril de 2015

As maravilhas de se permitir olhar fora da "caixinha"

foto by me
Gosto de procurar sutilezas escondidas no mundo, como em cenas de filmes em que cada detalhe é de tamanha sensibilidade.
Meus olhos buscam e captam a imagem que me toca profundamente, o céu cor de rosa, um bando de pássaros ao entardecer, uma árvore recheada de flores, ou o próprio sol a se esconder entre as nuvens. O incrível é que o mundo real é cheio de detalhes lindos, esperando para serem olhados e sentido.
Ouvi um pensamento interessante sobre a substituição das janelas pelas televisões. Penso que o homem está se condicionando a olhar dentro da caixinha, como se só lá dentro o mundo existisse. E a janela que simbolizava a abertura para o mundo exterior perdeu sua validade em uma sociedade pronta.
Não sou contra televisões, celulares ou qualquer outra tecnologia. Mas, acredito no poder de  retornarmos a observar o mundo lá fora, não apenas captado por um aparelho eletrônico e sim filtrado por nossos olhos e todos os órgãos do sentido.
Perceber a mesma situação ou fenômeno  como novo. Olhar o mundo de forma aberta para sentir o presente e não com os olhos viciados na rotina ( na mesma rua, no mesmo caminho da quitanda) , traz a magia  perdida nos dias de hoje. Não somos mais surpreendidos, não sentimos a estranheza.
Abrir o corpo, os poros para as vivências discretas que nos acompanham em todos os instantes, estar disposto a presenciar e interagir com o meio, nos coloca como parte do todo, das plantas, dos animais, dos homens, amplamente do universo. E não como um ser superior que se relaciona com o mundo pela exploração e individualismo, e sim em uma relação igualitária.
 

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